Da Indignação

fevereiro 14, 2007 at 5:29 pm Deixe um comentário

Maioridade penal aos 16 anos, pena de morte, linchamento público. A reação popular ao caso foi, como não poderia deixar de ser, proporcional à barbaridade do crime cometido.

São vários os fatores que causam tamanha comoção: a vítima é uma criança, corpo dilacerado, ossos aparecendo, algumas testemunhas, tudo acontecendo à luz do dia. A imprensa fez sua parte, com direito a entrevista dos pais no Fantástico; o garoto, hiperativo, foi retratado em alguns veículos como deficiente ou retardado, o que contribuiu para o aumento da indignação geral.

O grande problema é que nossa indignação é inócua, vista que não gera um movimento na direção de reduzir ou atacar o problema. No grau de colombianização que o Brasil vive, já é um insulto que a indignação popular só exista com a morte de uma menino de 6 anos arrastado por 7 quilômetros.

Por duas vezes no ano passado, a cidade de São Paulo ficou refém da bandidagem. Em menor escala, se passou o mesmo no Rio. O Rio, que assiste ao desalojamento de traficantes das favelas pela força de policias e ex-policiais trabalhando em esquema independente, tais quais free-lancers. São os mesmos policiais que não tiveram e não têm competência para fazer o mesmo oficialmente, com a lei de baixo do braço. O mesmo Rio que já conta com 138 vítimas de violência nesses 13 dias e meio de Fevereiro.

Me parece estranho que toda essa comoção tenha sido causada por um crime que, apesar de absurdo, não é necessariamente pior que qualquer outro tipo de assassinato. Foi estúpido, mas não mais estúpido que um casal queimado vivo dentro de um carro. Faltou respeito pela vida, mas não em um grau maior que quando um bandido puxa o gatilho com a intenção de matar outro bandido, ou um policial, ou a própria mulher que costurava pra fora.

Não sei se existe alguma diferença, mas nesse crime não houve a intenção deliberada de tirar uma vida. Ninguém falou “vamos matar o moleque”. Também não houve a menor preocupação com o fato de que o moleque morreria, mas deve haver alguma diferença entre “vamos mata-lo” e “deixemos que morra, depois a gente lava o paralamas”.

O fato é que estamos um tanto atrasados no quesito indignação popular, e talvez até tenhamos nos indignado pelo motivo errado. Precisamos de um mártir de 6 anos de idade para chacoalhar nossas idéias, e eu só espero que essa indignação não seja esquecida no próximo paredão do Big Brother.

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Pequena Miss Sunshine

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