Um defeito de cor

março 1, 2007 at 4:18 pm Deixe um comentário

Um defeito de corAna Maria Gonçalves é mineira. Trabalhava em São Paulo e um belo dia largou o emprego, vendeu tudo o que tinha e foi morar em Itaparica e escrever um romance.

A história do nascimento do livro é quase tão impressionante quanto o próprio. Consta que ao chegar à ilha de Itaparica, Ana saiu a fotografar a vila. Ao fotografar dentro da igreja, encontrou uma menina que lhe pediu que a fotografasse. Ana Maria fotografou a menina e prometeu lhe entregar as fotos no futuro.

Depois de meses vivendo em Itaparica, Ana teve sua casa assaltada. Emperrada em pesquisas que não levavam a lugar nenhum, decidiu se mudar para um flat em Salvador e procurar o rumo que estava faltando em seu livro e em sua vida. No dia da despedida da ilha, lembrou-se da menina da igreja, e foi procura-la para entregar as fotos que havia feito.

Foi até a casa da menina, entregou as fotos e brincou com o irmão menor da família, que desenhava com lápis de cor em um papel de rascunho. Ana, ao elogiar o desenho do pequeno, percebeu que a folha de papel se tratava de uma carta escrita no tempo do império. Curiosa, perguntou à mãe da criança se ela sabia a procedência do papel. Descobriu que se tratava de parte do acervo da biblioteca da igreja, que havia sido jogado fora. Ana trocou todas as folhas que a família mantinha por um belo conjunto de desenho, com papel sulfite, giz de cor, lápis e aquarela.

Naquelas folhas que a igreja jogou fora e uma mãe guardou como rascunho para o filho desenhar, estava o esqueleto da história de Kehinde.

Kehinde é uma menina africana, nascida no reino do Daomé. Aos sete anos de idade vê sua mãe ser estuprada e morta, é capturada e trazida como escrava para o Brasil, onde trabalha como dama de companhia da sinhazinha de uma fazenda de cana, é estuprada e tem um filho do sinhô, vira escrava de ganho e compra a liberdade, vê o filho morrer ainda criança, junta-se com um português que lhe dá outro filho, participa de uma revolução de muçulmanos, é obrigada a fugir de Salvador, fica sabendo na volta que seu filho foi vendido pelo pai como escravo, vai ao Rio de Janeiro, Santos, São Paulo e Campinas atrás do filho, desiste e volta para África, onde faz fortuna como empresária da construção civil, vê um neto morrer afogado, e volta ao Brasil para morrer.

Tudo isso (e muito mais) narrado com extrema delicadeza e elegância por Ana Maria Gonçalves ao longo de novecentas e tantas páginas, que valem cada um dos 70 reais que a editora cobra pelo livro.

Destaque especialíssimo para o trecho da viagem no navio negreiro, onde Kehinde descreve os horrores de uma travessia através dos olhos inocentes de uma criança.

É tão bom que não dá pra acreditar que é o romance de estréia de uma escritora jovem. Devemos todos agradecer pelo dia em que Ana Maria decidiu largar a segurança do emprego e arriscar tudo pra realizar um sonho, sem saber que iria criar uma obra-prima da literatura.

Palmas também para a editora Record, porque não é qualquer um que banca editar um livro de mais de 900 páginas de uma estreante.

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Crescimento… Mais estranho que a ficção

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