Aborto

março 22, 2007 at 11:26 am 2 comentários

fetoEu entendo que as discussões sobre o aborto sejam apaixonadas, com religiosos fervorosos de um lado e feministas ferventes do outro. A classe médica tende a ser a favor da descriminalização em alguns casos.

Os religiosos acreditam que toda vida pertence a Deus, e assim sendo, apenas o Senhor tem o direito de por fim à vida de alguém.

As feministas acreditam que o corpo de uma mulher é inviolável, e o que se passa lá dentro é de responsabilidade extritamente pessoal. Logo, é da mulher a decisão sobre o que fazer com o que está em sua barriga.

A classe médica não é homogênea. Alguns estão mais para religiosos, outros mais para feministas. Mas em geral, os médicos defendem o aborto em casos de anencefalia, estupro e risco à vida da gestante.

Acredito que é completamente legítima a decisão dos pais (ou da mãe sozinha) interromper uma gravidez indesejada, por qualquer motivo que seja. Por outro lado, também acredito que é completamente legítimo o direito de viver do bebê. O ponto de distinção entre esses dois conceitos é definir aonde começa a vida.

O maior problema nas discussões sobre o aborto é justamente o da definição do momento onde a vida se inicia. Quem é contra o aborto costuma definir como início da vida o momento da concepção. A partir do momento que o espermatozóide fecunda o óvulo, uma vida foi gerada.

Já os defensores do aborto tendem a definir o nascimento do bebê como o início da vida, visto que antes disso ele não era capaz de manter-se vivo sem estar fisiologicamente ligado à mãe.

Confesso que é uma discussão ingrata, onde os dois argumentos são importantes, e verdadeiros. Mas isso não nos ajuda a chegar a uma conclusão.

Se é realmente complicado definir quando uma vida se inicia, por que não temos problemas pra definir o momento em que a vida acaba? Já é ponto pacífico que uma vida acaba quando a atividade cerebral é encerrada. A morte cerebral de um indivíduo é considerada a morte do mesmo.

Se aceitamos o fato de que uma vida acaba quando se extingue a atividade cerebral de um indivíduo, deveríamos aceitar também que a vida se inicia quando a o feto passa a apresentar atividade cerebral. Logo, um feto deveria ser considerado um ser vivo apenas após o desenvolvimento de seu sistema nervoso central e a consequente existência de atividade encefálica.

A partir daí, define-se que todo e qualquer aborto antes desse momento é permitido, e a decisão fica 100% a critério da mãe. Após a primeira atividade cerebral, o aborto fica proibido, e é responsabilidade da justiça punir a mãe e/ou os médicos que o realizarem.

Mas ainda temos uma pegadinha: como é que vamos fazer pra saber se o feto já tem atividade cerebral sem gastar uma fortuna com exames complicadíssimos em cada caso?

Os estudos sobre o desenvolvimento fetal mostram que apenas na 28a semana de gestação o feto tem seu sistema nervoso desenvolvido o suficiente para controlar algumas funções corporais. Assim, nenhum feto pode ser considerado um ser vivo antes da 28a semana.

 Mas vamos imaginar que esse estudo possa estar errado por uma enorme margem de 20%. Consideremos então que a vida começa um pouco antes, na 22a semana. E ainda podemos considerar que esse seja um número médio, e que um feto pode se desenvolver 20% mais rápido que a média. Chegamos à conclusão que não existe vida antes da 17a semana de gravidez.

Logo, o aborto deveria ser permitido de maneira irrestrita até o 4o mês de gravidez. A partir daí, seria permitido apenas em caso de risco de morte da gestante.

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Diga-me com quem andas… Cotas, vestibular, etc.

2 Comentários Add your own

  • 1. Rogerio Teruz  |  junho 16, 2007 às 7:04 pm

    Posições filosóficas muito bem colocadas, embora eu, pessoalmente, seja visceralmente contrário ao aborto. Contrário mesmo para casos extremos pois não nos é possível prever que uma criança resultante até mesmo de um estrupo, não vá ser um excelente filho e um grande homem. O mesmo para deformidades físicas e/ou mentais detectáveis durante a gravidez (um dos maiores cientistas do mundo é portador de uma dessas deformidades). Estranho que em um artigo de tamanha importância e responsabilidade, o nome do autor não apareça.

    Responder
  • 2. Andrada  |  junho 18, 2007 às 11:38 am

    Rogério,
    Obrigado pelo comentário. Concordo em parte com o seu argumento – da mesma maneira um assassino ou pedófilo pode resultar de uma gravidez não-desejada e não interrompida. Qualquer tipo de pessoa pode ser fruto de qualquer gravidez, então não sei se esse argumento adiciona conteúdo à discussão.
    O autor do texto – assim como de todos os textos deste blogue – sou eu mesmo. Por isso não creditei.
    Um abraço,

    Responder

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