Cotas, vestibular, etc.

março 23, 2007 at 6:28 pm 2 comentários

Ontem o Alex (LLL) pediu opiniões a respeito do assunto. Aí vai a minha.

Nunca fui a favor da política de cotas para minorias nas universidades. A princípio, não se repara uma injustiça criando uma outra. Por outro lado, algo há de ser feito; é inegável que os negros sofreram tamanha violência no passado, e que essa violência os afeta até hoje.

Não vou me prolongar muito discorrendo sobre o básico. Educação se altera pela base, não pelo topo; primeiro resolvem-se todos os problemas do ensino fundamental, depois os do ensino médio, e só então mexe-se na estrutura universitária. Mas estamos no Brasil, então falemos sobre a universidade.

O problema

O grande monstro do sistema universitário brasileiro é o seguinte: ricos estudam de graça em universidades públicas ou pagando caro em faculdades particulares de referência (ESPM, FGV, etc.); pobres estudam em faculdades particulares meia-boca, mais acessíveis. Por que isso?

Como os ensinos fundamental e médio públicos são uma porcaria, os mais pobres chegam ao vestibular sem condição de disputar com os mais ricos, que cursaram o ensino médio particular e talvez cursinhos preparatórios. Aos pobres, restam as particulares meia-boca, que não exigem mais que semi-alfabetização nos processos seletivos, e cobram mensalidades que podem ser pagas por jovens com um emprego diurno – secretárias, recepcionistas, atendentes de telemarketing e vendedores.

Muita gente defende que aqueles que possuem renda não deveriam poder cursar uma universidade pública, ou então deveriam pagar pelo ensino. Besteira. O rico tem exatamente o mesmo direito do pobre de estudar em universidade pública. O que precisa ser feito é possibilitar que o pobre consiga entrar, e não tirar o rico de lá.

Sabemos que é impossível oferecer vagas para todos os interessados; nem sei se isso seria interessante se fosse possível. O que deve haver é uma distribuição mais justa dessas vagas existentes. O vestibular tal qual é aplicado hoje favorece os ricos, que têm maiores condições de se preparar. Qual minha sugestão?

Uma possível solução

As universidades públicas manteriam a autonomia na elaboração, aplicação e correção das provas; a primeira alteração viria apenas na classificação. Cada instituição divulgaria (antes da prova, claro) a nota mínima exigida para se cursar a faculdade. 60% de acertos, por exemplo. Todos os que tiverem desempenho igual ou maior que 60% estão classificados. Os que obtiverem menos de 60%, desclassificados.

Entre os classificados, as vagas seriam sorteadas. Não importa que um loiro tenha estudado no Rio Branco e feito um ano de Anglo; ele ia disputar a vaga com o preto que estudou no EEEM Congonhas do Campo, na base da sorte.

Reparando injustiças

Agora começa a parte interessante: os classificados fariam um cadastramento para concorrer pelas vagas, fazendo uma declaração de raça (branco, negro, asiático, etc.) e apresentando (quando se aplicar) cópias das declarações de isento no imposto de renda do próprio, do pai e da mãe. Supõe-se que famílias que não recolhem imposto de renda têm renda baixa. Teríamos como resultado do cadastramento os seguintes grupos:

1 – NSR – Negros sem renda

2 – NCR – Negros com renda

3 – OSR – Outras raças sem renda

4 – OCR – Outras raças com renda 

Estando os classificados devidamente qualificados entre os 4 grupos, começariam os sorteios pelas vagas. O primeiro sorteio se daria exclusivamente entre o grupo 1(negros sem-renda), preenchendo 10% das vagas.  Completada a cota de 10% para o grupo 1, seria feito um novo sorteio, de 20% das vagas, para o grupo 3 e os não-sorteados do grupo 1. Se 10% das vagas ficaram reservadas aos negros pobres, esses 20% de vagas contemplariam os pobres como um todo.

A próxima rodada vai incluir, além dos não-sorteados dos grupos 1 e 3, o grupo 2. Somam-se assim aos negros pobres e ao pobres em geral, os negros com renda. Preenchem-se assim mais 10% das vagas.

A última rodada de sorteios vai incluir todos os grupos; dessa maneira ficamos com o seguinte resultado:

Os mais abastados – brancos ou asiáticos e com boa renda –  concorrerão no sorteio por apenas 60% das vagas.

Os negros, mas não pobres, ganham 10% a mais de chances, e concorrem a 70% das vagas.

Os pobres, mas não negros, aumentam mais 20 pontos sua oportunidade, e concorrem a 90% das vagas.

E os negros e pobres, que certamente enfrentaram o maior número de obstáculos para chegar aqui, disputam 100% das vagas oferecidas.

Os prejudicados 

Quem perde com a mudança? Certamente os brancos/asiáticos mais ricos, que perderão muitas vagas. Vai doer? Claro que vai. Mas esses podem cursar as universidades particulares de referência, já que poderão economizar um ou dois anos de cursinho. Esses serão os maiores perdedores, os cursinhos preparatórios. Com o fim do vestibular por classificação, ninguém mais precisa estudar pra tirar 9,8. A grande maioria dos alunos que frequentam cursinhos poderiam se classificar para a fase de sorteios tranquilamente após o término do ensino médio.

Conclusão

Acredito que dessa maneira se permite a correção de algumas injustiças seculares, e mais que isso, permite que a base da pirâmide social tenha maiores condições de subir na vida, diminuindo a enorme desigualdade que existe no país.

Alguém tem algo a acrescentar? A corrigir? Sim, é uma idéia radical. Sim, eu sei que isso nunca vai ser feito por aqui. Mas nem por isso eu deixo de pensar que essa seria a maneira mais justa de se distribuir as vagas de universidade pública e gratuita.

Entry filed under: Geral, Política. Tags: .

Aborto Portos, Igualdade Racial

2 Comentários Add your own

  • 1. Rodrigo Leme  |  março 27, 2007 às 12:59 pm

    Bota idéia radical nisso…mas pelo menos você parece ter pensado mais do que quem criou a regra de cotas. deve ter sido algo assim:

    – Hei, precisamos de ações afirmativas para os negros?
    – Tipo o que?
    – Ah, nada muito complicado…só algo que faça parecer que o negro vai melhorar de vida porque vai ficar mais fácil entrar na faculdade e que ao mesmo tempo não nos dê trabalho.
    – E se chamarem de racismo?
    – Joga no colo da assessoria de comunicação do ministério. Nossa parte tá feita…

    Junta a sua idéia de cotas mais nossa idéia de legalização da prostituição e já temos um plano de governo pra concorrer em 2010!

    Responder
  • 2. Andrada  |  março 27, 2007 às 3:49 pm

    Eu acho que daria um ótimo ditador na presidência.

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Feeds


%d blogueiros gostam disto: