Archive for abril, 2007

150 anos de Mariana

Mariana é uma escrava mulatinha, 18 aninhos, bem gostosa mesmo. Mariana é escrava, mas foi educada junto com sinhôzinho e sinházinha. Mariana é filha de preto, mas sabe até ler francês. Mariana tem inteligência natural, e não abusa da situação.Mariana é tratada como parte da família. Mariana sabe se comportar, e quando há visitas na sala, ela fica convenientemente na cozinha. Afinal de contas, “ela é da familia, mas (falando baixinho agora) ela é escrava, sabe?”.

Mariana é quase igual aos donos. É quase-livre, é quase-gente.

Mariana também é a filha da empregada, tratada como se fosse da família. Que brinca com as crianças da casa, mas lava a louça da janta. Que almoça junto antes da aula, mas vai pra escola pública. Que brinca de boneca com a filha da patroa, e também brinca de médico com o filho do patrão.

Mariana é quase igual aos patrões. É quase-irmã em casa, quase-estranha na rua. Quase pode usar o elevador social e quase pode falar com os vizinhos.

Mariana, há quase cento e cinquenta anos, é o pior aspecto do preconceito racial brasileiro.

***

Essa é minha contribuição à discussão sugerida por Alex Castro, que convocou a todos para comentar o conto Mariana, de Machado de Assis.

Além do próprio Alex, também já escreveram sobre Mariana:

Incautos do ontem – Impressões sobre Mariana

Super Resumos – “Mariana”, de Machado de Assis

Vamos lá!

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abril 30, 2007 at 4:34 pm Deixe um comentário

Via Gúgol

Grande parte das visitas desse blog chega via google . As palavras-chave mais citadas, dia após dia, são:

– meninas nuas (de uma postagem sobre Lewis Carol);

– pornografia (de uma postagem sobre Sexo Anal, do Biajoni);

– Corinthians (de algumas postagens sobre o time);

– menina que nasceu com a mão colada – essa eu juro que não sei do que se trata. Nunca tive a curiosidade necessária para fazer eu mesmo a busca e descobrir quem é a tal menina, que supostamente nasceu com a mão colada (ao próprio corpo, imagino eu).

Mas a mais curiosa de todas foi uma busca que apareceu hoje pela manhã:

fotos de pegada básica no pau

O que seria uma pegada básica no pau? Seria essa pegada menos desenvolvida que uma pegada avançada? Existem diversas gradações de pegada no pau? Existem cursos de pegada? Módulo de pegada básica no pau, módulo de pegada intermediária no pau e módulo de pegada avançada no pau? Seria o sujeito um aluno do módulo básico?

Será que amanhã alguém buscará por fotos de passada de mão básica na bunda?

Haja louco no mundo.

Atualização: já apareceu uma nova modalidade – pegada no pau no ônibus. Mas não sei se o sujeito procurava por uma pegada básica ou avançada.

abril 26, 2007 at 3:48 pm 2 comentários

Zeca-feira

É incrível a capacidade da indústria cervejeira de criar conceitos de marketing estúpidos .

A mais nova é a criação do dia do alcóolatra. Quarta-feira não é mais dia de feijoada. É dia de encher a lata. Não é mais dia de futebol, é dia de pisar na jaca. A quarta-feira agora é zeca-feira, mais um dia para o povo brasileiro exercer toda a sua sensualidade, todo o seu bom-humor, toda sua espontaneidade, toda sua imbecilidade.

Não tenho nada contra o álcool. Muito menos contra a propaganda, ainda que imbecil. O que me irrita é essa característica do brasileiro, de sair repetindo o que vê na TV. O que me irrita é saber que hoje, uma quarta-feira, vai ter um puta monte de gente saindo do trabalho pra encher a cara de cerveja, comemorando a zeca-feira. “Ei, hoje é zeca-feira, vamos beber!”

E quinta-feira agora é ressaca-feira.

PS: A zeca-feira também foi reprovada pelo Marmota. E nem novidade é. Foi copiada de ação da Quilmes.

abril 25, 2007 at 10:30 am 2 comentários

Polegar Opositor

Terça-feira é dia de futebol. Depois do trabalho, das 18:30 às 20:00, uma turma de mais ou menos 15 peladeiros se encontra em uma quadra de futebol society do Bom Retiro para a prática amadora do bom e velho esporte bretão.

Ontem comecei como goleiro, e mais ou menos aos 20 minutos de jogo, um meia do time adversário percebeu que eu estava um pouco adiantado e chutou por cobertura. Consegui voltar a tempo de dar um tapinha na bola e jogá-la por cima do travessão.

O problema é que devido ao meu enorme talento goleirístico, acabei fazendo a defesa apenas com o dedão da mão direita. Que, com o peso da bola, sofreu uma luxação. Mesmo após bolsa de gelo e anti-inflamatório, o tão necessitado polegar opositor da mão direita está praticamente inutilizável.

O movimento de pinça do polegar opositor é, juntamente do telencéfalo altamente desenvolvido, grande responsável pelo desenvolvimento da espécie humana.

Sem o polegar, as mais simples tarefas tornam-se um pesadelo: escovar os dentes, erguer um copo de água, girar uma chave, vestir uma cueca, descascar uma banana, até digitar esse texto fica mais complicado sem o dedão.

Por isso, hoje começa um novo período da minha vida. Hoje passo a ser oficialmente canhoto. Pelo menos até que meu polegar opositor direito esteja curado.

abril 25, 2007 at 9:43 am 2 comentários

Médias de público

Médias de público de algumas ligas européias na temporada 2005-2006:

Alemanha: 40.572

Inglaterra: 33.875

Espanha: 29.029

Itália: 22.413

França: 21.678

Holanda: 16.610

Escócia: 16.144

E a média de público do Campeonato Brasileiro em 2006:
12.385

Deve ter algum segredo que precisamos aprender com o futebol europeu…

abril 24, 2007 at 2:39 pm Deixe um comentário

Protestando do jeito errado

Você conhece um funcionário do metrô que emite nota fiscal de prestação de serviço? Um condutor de trem, um bilheteiro, alguém que seja funcionário do metrô, mas ao invés de registro de trabalho, mantenha um contrato de prestação de serviço. Você sabe de algum caso?

E nas empresas de ônibus? Tem algum motorista ou cobrador que emita nota fiscal para a empresa?

Então por que caralhos tivemos ontem em São Paulo greve de ônibus e metrô? Desde quanso impedir a prestação de um serviço essencial à população de uma cidade é maneira civilizada de se protestar?

Se eu fosse diretor do metrô, atrasaria os pagamentos de todos os funcionários em uma semana. Pra protestar contra a atual fase do Corinthians.

Esse é o sindicalismo do Brasil.

abril 24, 2007 at 2:26 pm Deixe um comentário

A discussão da meia-entrada

Essa semana pipocaram matérias (G1, Terra) e blogagens (Soninha, Alex, Ricardo, Cinema com Rapadura, Daniel, Bonequinho Cego, Ricardo Cobra, André Kenji) sobre a meia-entrada. Alguns contra, outros a favor. Aproveito para republicar um post de fevereiro, com algumas atualizações.

***

Você conhece a lei da meia-entrada. É aquela que garante aos estudantes o direito a 50% de desconto em eventos culturais e esportivos. Cinema, teatro, shows, circo, zoológico, jogos de futebol, museus, exposições, tudo pela metade do preço.

“Ah, mas é justo. Estudante tem que ter o acesso à cultura facilitado.”

Também acho. Mas quem propicia esse acesso facilitado à cultura é o governo (municipal, estadual ou federal), certo?

Errado. O governo brasileiro, como de costume, dá esmola com o dinheiro dos outros. O promotor do espetáculo, que é obrigado por lei a conceder 50% de desconto, não tem contrapartida alguma. Isenção de impostos? Não. Benefício fiscal? Nada. Indenização em dinheiro? De jeito nenhum.

Cada vez que um estudante apresenta a carteirinha e paga meia, quem banca a outra metade é o promotor do espetáculo. Ele entrega o produto por inteiro e só recebe metade do ingresso.

“Ah, mas o lucro deles é enorme! Que diferença faz pro cinema se eu pago R$ 15 ou R$ 7,50?”

Toda a diferença. Basta conhecer um pouco de matemática para entender.

Suponhamos que a produção de um show tenha um custo total de 100 mil reais, entre cachê, aluguel do espaço, equipamentos de som e luz, segurança, bilheteria, etc. Suponhamos que o promotor queira um retorno de 20% do capital investido. Temos aí que o faturamento do show tem que ser de 120 mil reais.

Supondo ainda que a casa tenha capacidade para 2 mil pessoas, e que todos os ingressos serão vendidos, o preço unitário do ingresso deveria ser de 60 reais. Certo?

“Viu? Eles que são gananciosos, querem ganhar muito e cobram mais de 100 reais no ingresso de um show!”

Errado, porque com ingressos a 60 reais, os estudantes pagariam apenas 30. Se 60% do público for de estudantes, a arrecadação total do show seria de 84 mil reais, o que não cobre o custo do promotor.

O que se faz então? Simples, dobra-se o valor do ingresso. O show que custaria 60 reais para todos se não existisse a meia-entrada, vai custar 60 para os portadores de carteirinha e 120 para os não-portadores. E quem foi que pagou meia no final das contas? Ninguém.

“Ah-rá! Te peguei. De acordo com as suas contas, então o promotor do show vai faturar 168 mil reais, ganhando bem mais que 20%! Viu, eles que são gananciosos!”

E os riscos do produtor? E se ao invés de casa lotada, apenas metade dos ingressos for vendida? E se forem 70% de estudantes ao invés de 60%? E se o lucro realmente for de 68%? É errado visar o lucro no Brasil? Capitalismo ainda é palavrão?

A situação já seria feia se apenas estudantes portassem a carteira de estudante. Mas é de conhecimento geral que não há nada mais fácil que conseguir uma mesmo sem nunca ter colocado a bunda numa cadeira de escola. Eu conheço um cara que tem uma carteirinha de estudante do curso de arqueologia. Você conhece algum curso superior de arqueologia no Brasil? Pois existem carteirinhas de estudantes de arqueologia.

“Mas se o preço fosse justo, não ia ter tanta falsificação. As pessoas só falsificam porque cultura é muito caro.”

Ou será que cultura é muito caro porque existe falsificação de carteirinha? As pessoas falsificam o documento de estudante para obter uma vantagem: pagar metade.

Quem estuda em faculdade particular, pagando em torno de mil reais de mensalidade, tem direito a desconto. E alunos de pós-graduação, já formados, empregados, quem gastam 20 mil reais por ano em um MBA, também têm direito a desconto de 50%.

São esses os cidadãos que precisam tanto de acesso facilitado à cultura?

“Então você quer o quê? Acabar com a meia-entrada?”

O que eu penso? Sou contra o desconto pra estudante. Se o governo acha que deve disseminar a cultura entre os jovens, ele que ponha as secretarias pra trabalhar. Cinema de graça em centros culturais, shows gratuitos em escolas públicas, tudo com verba própria. Quem quiser assistir Homem-aranha 3 ou ver o show do Evanescence, que pague o ingresso. Inteiro.

E, por favor, eu gostaria de ler comentários inteligentes. Quem disser, por exemplo, que eu sou contra a cultura, ganha o direito de ser ridicularizado em postagens futuras. Assim como aqueles que argumentarem com o objetivo único de defender o próprio direito.

abril 23, 2007 at 5:25 pm 23 comentários

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